Diz a lenda que, no tempo das guerras da Restauração, Miranda do Doutro esteve dias e dias cercada pelas tropas espanholas, ao ponto de, sem mantimentos nem munições para resistir, nada mais restar do que render-se definitivamente ao domínio invasor. E eis senão quando um menino de chapéu de palha, desconhecido, irrompeu pelas ruas gritando contra os espanhóis e apelando à revolta dos populares. Tal foi o bastante para que o povo ganhasse o alento que lhe faltava. Num ápice todos saíram à rua - uns com enxadas, ancinhos e forquilhas, outros com paus, cutelos e machados - unindo-se às tropas fragilizadas da restauração. E assim conseguiram afugentar e vencer os invasores. No final, o povo procurou o tal menino, travesso, refilão, o do chapeuzinho de palha. Queria louvá-lo. Vitoriá-lo. Mas quê? Onde estava? Quem era ele? Ninguém sabia. Tinha, pura e simplesmente, desaparecido. O povo acreditou então que havia sido o Menino Jesus que ali caíra, por milagre, para salvar a cidade. E logo mandou esculpir a imagem que passou a ser venerada na catedral. Entretanto, uma jovem que, na mesma batalha, havia perdido o noivo, um oficial das tropas portuguesas, resolveu oferecer o traje militar ao menino. E daí nasceu a tradição da dádiva de roupas. Muitos anos depois, porque alguém achou que o chapéu de palha não condizia com a nobreza do traje, e tão-pouco com o "estatuto" de um comandante, colocaram-lhe então a cartolinha. E que bem que lhe fica! A festa do Menino Jesus da Cartolinha celebra-se no dia de Reis, Domingo antes ou depois do dia 6 de Janeiro. Como é padroeiro das crianças o andor é transportado aos ombros por quatro meninos que se revezam ao longo da procissão.
A atual manifestação dos Caretos de Podence, na época de Carnaval, é a reminiscência de rituais religiosos pré e proto-históricos, que nos lançam para um universo fantástico, no qual o religioso e o profano se confundem. Fazem parte de uma tradição secular transmontana, que se julga estar associada a práticas mágicas, relacionadas com os cultos agrários da fertilidade.
O Domingo Gordo e a terça-feira de Carnaval são os dias da folia dos Caretos, que surgem em bandos de todos os cantos da aldeia de Podence, em frenéticas correrias, "assaltando" transeuntes e adegas. As marafonas(HOMENS VESTIDOS DE MULHER E VICE VERSA) são os únicos seres que os Caretos respeitam nas suas tropelias, gritarias e chocalhadas.
As raparigas solteiras, principal alvo destes bandos mascarados, levam-nos a trepar muros e varandas para as "chocalhar". Ainda não há muitos anos, as pessoas punham trancas às portas e janelas, assustadas com o que lhes podia acontecer. Hoje em dia, os Caretos são mais moderados, mas mesmo assim, as suas correrias e os seus gritos não deixam de ser assustadores para a maioria dos forasteiros desprevenidos.
Os Caretos usam máscaras, feitas de latão, madeira ou couro, pintadas de cores vivas, onde sobressai o nariz pontiagudo. As suas vestes são confeccionadas a partir de colchas franjadas de lã de verde, azul, preta, vermelha e amarela. Usam chocalhos presos à cintura, que servem para "chocalhar" os seus alvos. Da sua indumentária faz igualmente parte um pau ou moca, que lhes serve de apoio nas suas correrias e saltos.
A "CAPA DE HONRAS" Mirandesa é uma peça de artesanato mui "SUI GENERIS" do planalto Mirandês, que tem por finalidade proteger os "boieiros" (guardadores de vacas) e pastores de todas as intempéries nos meses mais rígidos, nomeadamente no Inverno.Como é uma das peças de artesanato mais ilustres do planalto Mirandês, como é óbvio, é indispensável a sua utilização em qualquer tipo de cerimónias, sejam de que índole forem.É uma peça com grande valor etnográfico e que requer um trabalho minucioso por parte do artesão devido à sua grande complexidade.Em terra de Miranda diz a sua gente: "Há nove meses de Inverno e três de inferno". O Clima é áspero e variável, a paisagem agreste, apenas convidativa na Primavera e em alguns dias de Outono. No resto, tocam-se os extremos do frio e do calor.Por isso, o homem que tem vivido nesta terra criou a sua maneira de vestir para se defender no trabalho do campo, destes dois extremos.A sua vida toda ela de natureza agro-pecuária, levou-o a criar os trajes de certa maneira austeros, simples e belos, artesanais e domésticos, feitos à base dos recursos locais, o linho e a lã (Burel).É, pois, feita de lã, fiada, urdida, tecida e pisoada (pardo-burel) a capa de honras Mirandesa.É uma das peças do trajo popular Português, pesada, a mais imponente e a mais antiga.Deve ter origem na capa de "Asperges" gótica, de raiz medieval de algum mosteiro Leonês. "Muito ornamentada de lavores nas bandas, gola – carapuça sui generis e rabicho que, por detrás, pende até meio dela, dando ao todo o aspecto de capa de asperges eclesiástica medieval, como observa Trindade Coelho". É parecida com a capa de Burel de Aliste mais rica e mais solene.Como diz Ernesto Veiga de Oliveira, "Vemos em terra de Miranda numa categoria à parte a capa de honras, em Burel, a mais nobre peça do nosso traje popular, de capuz, honra e aletas, com aplicações recortadas e ponteadas, em cuja confecção se chegavam a gastar 60 dias e mais".De cor castanha, fabrico caseiro, ainda hoje se confecciona em Constantim (Miranda do Douro) e é utilizada por individualidades em actos célebres e por pastores e lavradores desta região transmontana, principalmente no inverno. De notar que cabeção "HONRA", pala, orlas das abas e da racha, atrás são ornadas com aplicações de burel finamente recortadas, cosidas à mão sobre o fundo intermédio de tecidos de lã preto. O cabeção e a honra rematam em franja. A pala do capuz é debruada por uma barra de tecido de lã preta.O nome "HONRA" não provém unicamente do seu uso por pessoas mais ricas e nobres, mas sim por muito trabalhada.Antigamente era usada pelas pessoas que possuíam um estatuto social mais elevado, "mais ricas". Era um traje domingueiro. Ao longo dos tempos passou a ser usada por pastores e lavradores da região.Hoje verifica-se grande procura por pessoas de fora e autóctones, o que vem confirmar a admiração, riqueza e beleza desta preciosidade do artesanato Português.Como se pode constatar por esta descrição pormenorizada isto premeia a grande dedicação, rigor e mesmo grande imaginação por parte do artesão.Isto faz com que seja uma peça de artesanato de grande exemplar da cultura Portuguesa e além disso constitui um grande orgulho do artesão. Domingos Raposo